Photobucket O MUNDO ENCANTADO DE CECÍLIA MEIRELES ... - UOL Blog


DESAFIO PARA VOCÊ !

 

ATENÇÃO  papais, mamães, professoras e professores, amigas e amigos desse bloguinho.

Todos nós temos uma casa que faz parte da nossa história. Eu tenho a minha, escrevi duas vezes sobre ela quando era adolescente :

"É curioso: só vivi dois anos nesta casa, e é nela que me parece estar metida

minha vida inteira!"

(Éça de Queiros)

 

A CONSTRUÇÃO

Depois que papai morreu, mamãe quis logo se mudar, eram recordações demais.  Começou uma construção em frente ao jardim: “Nova casa, nova vida, nada de recordações!

No planejamento uma mistura do que havia de mais moderno: telhas  Brasilit, forro Eucatex, elemento vazado para o fundo da garagem, pilares na varanda, sinteco nos quartos, bidê e box no banheiro, um luxo só !

Com nove anos, minha maior responsabilidade era fazer o pagamento das duplicatas em Adamantina. Adamantina ficava  depois de Flórida Paulista, antes de Lucélia e de Oswaldo Cruz. Saía no trem das 8. Às 12 tudo estava terminado, mas o trem da volta só passava à noite. Enquanto esperava, procurava o jardim japonês, comprava pasteis de queijo e passava o dia comendo e pensando na vida.

Pensei e comi até a última duplicata. A casa, finalmente, estava pronta. Os materiais todos pagos. Tudo novinho em folha: cortinas, tapetes, colchas, lençóis. Tudo seguindo rigidamente o lema de minha mãe: “NADA DE RECORDAÇÕES!”

Doce ilusão...

 

Leonor Cordeiro

  

Vão demolir esta casa.

Mas meu quarto vai ficar,

Não como forma imperfeita

Neste mundo de aparências:

Vai ficar na eternidade,

Com seus livros, com seus quadros,

Intacto,  suspenso no ar!

 

Manuel Banderia


A MUDANÇA

A casa em frente ao jardim se misturava comigo, mas o dia da partida chegou. Mamãe vendeu os móveis, as cortinas, o liquidificador. Só tirou uns jogos de porcelana e de cristal.

Não entendia a facilidade com que as coisas ficavam para trás, pra mim elas tinham história, tinham vida. Mas a casa estava vendida e o dinheiro da venda, emprestado e perdido. A promissória guardo como relíquia, o último vestígio da casa em frente ao jardim. Mas as lembranças, essas passeiam por minha memória: corredores, quartos, salas, barulho de música, cômodos iluminados, pés de jaboticaba, de laranja, de limão, janelas que se abriam ao amanhecer ...

Leonor Cordeiro

 

Nossa querida Cecília escreveu uma crônica chamada 'Casas Amáveis". Leia essa crônica e faça um depoimento sobre a casa que marcou a sua história. Se o seu depoimento for o escolhido por nossa comissão julgadora, você ganhará um livro da Cecília  no dia 24 de abril.

 

CASAS AMÁVEIS

VOCÊS ME DIRÃO QUE AS casas antigas têm ratos, goteiras, portas e janelas empenadas, trincos que não correm, encanamentos que não funcionam. Mas não acontece o mesmo com tantos apartamentos novinhos em folha?
Agora, o que nenhum arranha-céu poderá ter, e as casas antigas tinham, é esse ar humano, esse modo comunicativo, essa expressão de gentileza que enchiam
de mensagens amáveis as ruas de outrora.

Havia o feitio da casa: os chalés, com aquelas rendas de madeira pelo telhado, pelas varandas, eram uma festa, uma alegria, um vestido de noiva, uma árvore de Natal.

As casas de platibanda expunham todos os seus disparates felizes: jarros e compoteiras lá no alto, moças recostadas em brasões, pássaros de asas abertas, painéis com datas e monogramas em relevos de ouro. Tudo isso queria dizer alguma coisa: as fachadas esforçavam-se por falar. E ouvia-se a sua linguagem com enternecimento. Mas, hoje, quem se detém a olhar para rosas esculpidas, acentos, estrelas, cupidos, esfinges, cariátides? Eram recordações mediterrâneas, orientais: mitologia, paganismo, saudade. (Que quer dizer saudade? E para que e o que recordar?)

Os jardins tinham suas deusas, seus anões; possuíam mesmo bosques, onde morariam ecos e oráculos; e pequenas cascatas, pequenas grutas com um pouco d'água para os peixinhos. Possuíam canteiros de flores obscuras - violetas, amores-perfeitos - para serem vistas só de perto, carinhosamente, uma por uma, de cor em cor. (Hoje, estes ventos grandiosos apagam tudo.)
E, lá dentro, as casas tinham corredores crepusculares, porões úmidos, habitados por certos fantasmas domésticos, que de vez em quando se faziam lembrar, com seus pálidos sopros, seus transparentes calcanhares, suas algemas de escravidão.

As famílias abrigavam cortejos de mortos.
E havia as clarabóias. Luz como aquela? Nem a do luar! - uma suavidade de cinza e marfim, a maciez da seda, o fulgor da opala.
As casas eram o retrato de seus proprietários. Sabia-se logo de suas virtudes e defeitos. Retratos expostos ao público: nem sempre simpáticos, mas geralmente fiéis.
Agora, os andaimes sobem, para os arranha-céus vitoriosos, frios e monótonos, tão seguros de sua utilidade que não podem suspeitar da sua ausência de gentileza.
Qualquer dia, também desaparecerão essas últimas casas coloridas que exibem a todos os passantes suas ingênuas alegrias íntimas - flores de papel, abajures encarnados, colchas de franjas - e sujas risonhas proprietárias têm sempre um Y no nome, Yara, Nancy, Jeny... Ah! Não veremos mais essas palavras, em diagonal, por cima das janelas, de cortininhas arregaçadas, com um gatinho dormindo no peitoril.
Afinal, tudo serão arranha-céus. (Ninguém mais quer ser como é: todos querem ser como os outros são.)
E eis que as ruas ficarão profundamente tristes, sem a graça, o encanto, a surpresa das casas que vão sendo derrubadas. Casas suntuosas ou modestas, mas expressivas, comunicantes.Casas amáveis.

 

Cecília Meireles. Escolha o Seu Sonho- Editora Record, p.17-19

 

Coloque a sua história no espaço dos comentários ou use o e-mail: leonor_cordeiro@uol.com.br



Escrito por Leonor Cordeiro às 15h21
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Eu nasci numa pequena cidade do
interior de São Paulo chamada Pacaembu.

Na minha infância gostava de brincar com bonecas, pular corda, jogar queimada, tomar banho no rio, brincar de teatrinho, recitar poesias e ler muitas histórias.

Quando cresci, cursei teologia, psicologia e filosofia.

Gosto de fotografia e de fotografar, de pintura e de pintar, de ler e de escrever, de estudar e de dar aulas.

Adoro fazer esse blog pois além de colocar os poemas da Cecília, posso conhecer pessoas lindas como você.

Leonor Cordeiro

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